mike,
confesso que queria ter vivido o amor grandioso que prometemos um para o outro,
confesso que te queria encontrar esse ano, que queria te amar de perto.
mas já que não foi possivel, estou vivendo o mesmo amor que tu me prometeu, com alguém que eu sei que me ama o triplo do que tu amou.
alguém que atura minhas crises,
que me ajuda a curar os meus traumas,
alguém que tá ali de verdade.
finalmente deixei de aceitar as migalhas que tu me oferecia e que eu achava serem suficientes,
finalmente estou vivendo um amor grandioso.
daqueles que a gente escuta quando criança e pensa “poxa, será que um dia vou amar tanto assim?”
te confesso que apesar de,
por muito tempo,
ter ansiado nosso encontro,
fico feliz pelo mesmo não ter acontecido.
{senti teu gosto balançando em minha lingua,
nos ingeri sem pensar
quanto de nós ingerimos sem ter conta?}
Às vezes
você sabe
que vai bater,
e acelera.
c.
eu poderia passar horas escrevendo de novo sobre o peso dos dias e sobre ruínas e crises de ansiedade
mas hoje não, a. hoje eu quero tentar escrever sobre vida, e sobre como viver muitas vezes é um ato de coragem que nos leva a lugares longe demais
sobre como estar longe não é só sobre o físico, e como estar perto muito menos, e sobre como você tem estado perto mesmo morando na outra ponta do continente
hoje eu quero falar sobre o dia em que ouvi “anyone else but you” na playlist que você me fez de aniversário e em como naquele dia eu tive certeza que as coisas nao precisam ser pesadas o tempo todo, que elas podem sim ser leves e que a paz aparece de vez em quando em momentos pequenos e em gestos menores ainda
porque mesmo que não seja minha praia falar abertamente sobre sentimentos, usar música pra falar por mim é uma área que eu entendo muito bem, e ouvir o que você tem a dizer através de alguns acordes e uma melodia boba foi quase tão bom quanto saber que era recíproco quando a gente meio sem jeito falamos aquelas três palavras
palavras que são diferentes em nossas línguas mas que expressam o mesmo sentimento, que passam a mesma mensagem
a mensagem que tem alguém por aí que se importa com a gente, que se importa comigo, a. alguém que mesmo nunca tendo visto em pessoa sinto que já conheço a milênios
hoje eu desisti de falar sobre como dói pra falar sobre como cura, como às vezes salva e como de vez em quando devolve pra vida o sentido de toda essa luta
obrigado por me lembrar do porquê eu tô aqui, a.
romantically yours.
cê é de um tempo quando eu só ouvia rock atrás de rock, sabia os nomes de cada jogador do barcelona, as posições. eu tinha o maior cabelão que não cuidava, não dava conta, não tinha saco. eu não usava maquiagem, não desenhava, escrevia textos mais curtos, com menos pontuação. cê é dessa época quando eu não abraçava muito, quando eu ainda sabia só os acordes básicos do violão e pensava que um dia ia dar certo com a guitarra. e eu tinha uma meia dúzia de amigos que eu nem conhecia, pra ser honesta. tinha uma penca de vontades e certezas que hoje parecem pozinho de tang que engulo às pressas a caminho da faculdade. e eu te perdoo por estar meio obsoleto no mural de fotos me dizendo silenciosamente que sente uma saudade que não age. porque você sabe: saudade costuma mover a gente pra algum lugar, que seja o chão do banheiro pra chorar, mas move. mas a sua saudade é estática. faz uma faltazinha mínima e toca pra frente, como quem dá um soluço só e passa. cê é das antigas, de quando eu tinha aquelas feridas abertas e escondia debaixo da roupa e não sabia como estancar. em algum desses momentos eu me entupi de mpb, jazz e um pouquinho de eletrônica nas festas. aprendi uns acordes novos, larguei de vez a guitarra, parei de assistir futebol. escrevo umas coisas esquizofrênicas e fui lentamente te deixando pra trás, congelado nas fotos do moral. e eu respeito esse nosso estilo de saudade, porque ela é própria respeitosa no não agir dela: deixa que a vida toque em continuidade, dessa vez embalada pelas melodias certas. sem isso de ‘se ama vai atrás’. amor é dar espaço, dar tempo, dar distância. tem flor que só germina em nevasca.